A sua lista de compras está vazia.
MANIAS DE BIBLIÓFILOS
Isto de amadores de livros temo-los de tôda a qualidade e feitio. Cada doido com sua mania, diz o vulgar anexim. E cai aqui como môsca no leite. Pois não havia um maduro que comprava todos os livros que encontrasse encadernados em pelica ou carneira azul? Alguns livreiros viram no caso uma mina, e exploraram-na torpemente. De cada livro que editassem, despachavam logo um exemplar para o encadernador para que o encapasse naquela côr, exemplar que o pobre pateta se apressava a adquirir, tanto montava que fôsse um livro de cosinha, como um manual de parteiras, um tratado de esgrima ou os sonetos de Camões.
Um falecido estanceiro, bibliófilo amador, que mercê de muitos contos de réis conseguiu reunir uma preciosa livraria, êsse esperava nos leilões que o volume desejado excedesse o lanço de cinqüenta mil réis para o arrematar. Até esta altura, o livro não era digno dêle —era entulho sem valor. Mas logo que o desejado calhamaço excedesse a bitola dos cinqüenta, tinhamos homem. Já não o largava.
Eu ainda conheci um patusco que comprava todas as Artes de Furtar, da hipotética autoria do P." António Vieira, que topasse à venda em alfarrabistas ou de que tivesse notícia por catálogos ou informações pessoais. Assim alcançou umas duas ou trés dezenas. Um dia, tendo-os encharcado préviamente de petróleo, deitou-lhes fogo num páteo interior da casa onde morava, no meio dos protestos da visinhança, escamada com a fumaceira que invadia os prédios circundantes até às aguas-furtadas. Queria o bom do homem-vejam lá esta ratice! —tornar rara aquela obra. Tempo perdido, porque a Arte de Furtar ainda hoje não figura no elenco das raridades. Quanto ao beneficiamento social, se algum se teve em vista, também não dou dez réis por êle. Parece mesmo que essa arte lucrativa proliferou mais depois dêsse auto de fé.
Há por ai alguém que tenha conhecido o Pereira Merelo? Eu não o conheci porque não calhou; ainda vivia quando lancei ferro em Lisboa. Esse tinha outra mania. Tudo lhe prestava, contanto que tivesse a forma de livro, velhas crónicas, livros de missa, números soltos de jornais, romançada de três ao pataco, edições princeps, relatórios de associações, tudo foi encontrado, depois da morte daquele célebre corretor de Bolsa, metido em sacas de linhagem, à laia de batatas ou feijão em fundo de armazem. Tenho esta informação de Teófilo Braga, que prefaciou essa aventesma bibliográfica que é catálogo do leilão Merelo. Mas no meio daquêle entulho livresco, que os ratos e as baratas já começavam a rilhar, quantos manuscritos preciosos, quantos exemplares únicos de incunábulos e livros do quinhentos e seiscentos!
Merelo foi o tipo do bibliómano hermético. Livro que lhe caísse nas mãos era alma que caía no inferno: nunca mais ninguém lhe punha a vista em riba. Não há notícia de pesquizador a quem o famoso corretor permitisse a consulta dum livro.
Era um pouco assim o falecido visconde da Esperança, que todos nos lembramos de ter visto em Lisboa a arrastar o seu pigarro pelas almoedas de livros, a lançar de vez em quando, na sua voz fanhosa e lenta:
— Mais mei'tostão!
E é que não havia meio de um pobre de Cristo conseguir qualquer livréco, desde que êle começasse nesse pinga-pinga :
— Mais mei'tostão! Mais mei'tostão!
De cada viagem à capital, era certo e sabido que retornava à sua Manisola com uma carregação de livros. Como sucedia com o Merelo, comprava um alfarrábio sem se lembrar que já noutro leilão adquirira um igual. Resultado: ficar com 3 e 4 exemplares da mesma obra.
Mas o velho Esperança remiu êstes senóes no seu testamento, deixando a inumerável livralhada à biblioteca pública de Evora.
E assim como há quem se esqueça dos livros que compra, também há quem se esqueça dos livros que pede emprestados. Já outro, mostrando a sua biblioteca a um amigo, lhe negava o empréstimo dum livro, objectando despejadamente que todos os que possuía assim foram adquiridos, Um provérbio oriental também aconselha: ... a não emprestes a tua mulher, nem o teu livro, nem a tua espingarda, nem o teu cavalo ... E árabe o provérbio, mas ajusta-se aos beduínos do Ocidente. Efectivamente, uma vez emprestados, ou não voltam, ou não veem como foram.
Carlos Nodier tinha sôbre a porta da sua bibliotéca :
Tel est le triste sort de tout livre prêté :
Souvent il est perdu, toujours il est gaté.
E um bibliófilo português usa nos seus exlibris esta quadra, que parece um preceito do João Felix Pereira pôsto em verso:
Pedir um livro emprestado
É falta de cortesia ;
Quem o leva, é mal olhado,
Quem o empresta, arrelia.
Para fechar o cavaco, contarei dum literato e amador de livros, muito conhecido aqui há quarenta anos, que tinha uma original maneira de comprar livros pelo preço da uva-mijona. Entrava num alfarrabista; e, quando nas rebuscas que fazia escabichava algum volume que lhe conviesse, olhava em derredor, espiando o momento em que o dono da casa estivesse distraído ou a atender algum cliente e, sorrateiro, rasgava-lhe uma fôlha, que disfarçadamente dobrava e sumia na algibeira. Tôda a gente sabe que livro incompleto é livro reduzido á décima parte do seu valor, ou menos. O marau apresentava o volume ao lojista:
- Quanto vale isto? Mas olhe que está incompleto.
- Está incompleto?! Hom'essa! Então que lhe falta ?
- Veja... a página tal ou tal... E é pena —acrescentava compungido — é pena, que era um livrito menos mau...
E lá levava por 5 ou 10 o que valia 50 ou 100.
Chegado a casa, a fôlha arrancada voltava á luz do dia e era cuidadosamente passada a ferro e colada ao livro, que ficava completo e revalorizado.
CARDOSO MARTHA
(in DOS PRELOS - Boletim de Novidades Bibliográficas, ano II, nº 20, Julho-Agosto de 1929)
Na imagem, caricatura de Manuel Cardoso Martha (1882-1958) por Francisco Valença (1882-1962).